Descrição
Obra de Guido Drummond
Técnica: Assemblagem sobre crânio bovino, osso, pintura, adorno de sela de boiadeiro, metal, tecidos, contas e objetos ornamentais
Uma obra sobre autonomia, transformação e pertencimento. Ao retirar da sela um objeto associado à condução e colocá-lo sobre a cabeça do animal como uma coroa, o artista realiza uma inversão: aquela que era conduzida abandona a boiada e assume sua própria direção. O vestígio transforma-se em presença; o instrumento de condução, em símbolo de liberdade.
A que saiu da boiada
Há um momento em que deixar a boiada não significa perder-se. Significa encontrar-se.
Nesta obra, o crânio bovino — matéria que normalmente evocaria morte, descarte ou vestígio — retorna revestido de cor, flores, desenhos e adornos. O que restou de um corpo torna-se presença. A morte não encerra a narrativa: oferece matéria para outra existência.
Sobre a cabeça, uma peça retirada do universo da sela e da montaria ocupa o lugar de uma coroa. Originalmente, pertence à estrutura criada para montar, conduzir e controlar o animal. Aqui, porém, acontece uma inversão simbólica: aquilo que participava do aparato da condução deixa de estar sobre a sela e passa para a cabeça daquela que já não aceita ser conduzida.
A vaca saiu da boiada, deixou de seguir o movimento coletivo simplesmente porque todas seguem. Deixou para trás o boiadeiro, a direção imposta e o caminho previamente determinado. Apropria-se de um símbolo de poder e o transforma em insígnia de autonomia.
Há certa ironia nessa coroação. Não é uma coroa aristocrática criada para uma rainha. É um objeto proveniente justamente do mundo que domesticava, ordenava e conduzia. Ao deslocá-lo de função, a obra também desloca seu significado.
O crânio, então, deixa de representar apenas aquilo que morreu. Pode representar aquilo que precisou morrer para que outra existência se tornasse possível: a obediência, o pertencimento compulsório, o medo de abandonar o rebanho.
Os ornamentos intensificam essa transformação. Flores, contas, tecidos, metais e cores ocupam o osso como uma celebração da singularidade. O que poderia ser resto torna-se exuberância. O que era animal conduzido torna-se sujeito simbólico de sua própria trajetória.
“A que saiu da boiada” fala sobre o gesto difícil de separar-se do caminho conhecido para assumir a própria essência.
Não se trata simplesmente de estar contra a boiada.
Trata-se de descobrir que existe vida fora dela.
E, talvez, de perceber que aquilo que um dia serviu para nos conduzir também pode ser transformado na coroa com que contamos nossa própria história.



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